Último capítulo

Dona Natal dos Ferros estava muito cansada, exausta. Pediu para que eu a acompanhasse até à sala. E lá ouvi a última parte da história.


— A coisa ficou marrom de feia quando o homem mais rico do Brasil baixou pro lado de cá. O danado veio com capanga, segurança, o diabo a quatro. E mais um cordão de puxa-saco, que só vendo. Descobriu minério na nossa região, menina. Ouro pra esse povo de longe...Tão mexendo com a vida de todo mundo, comprando terra dos ricos, dos pobres. Tão mandando o povo embora. Cariá tá solto, inhá! 


— Como assim, pode explicar melhor?

— Muita discórdia. O meu velho já sabia de tudo, lia muito. “Mineradora comprará terreno de todos os moradores da Serra da Penugem. Em breve, começarão o trabalho de escavações.” Era notícia em todos os jornais. Muita especulação. Inferno caiu em cima da gente, menina.

— E o tal moço?

— Aquele carrapato do olho amarelo chegou de mansinho, entendido de leis, veio chorar a morte do tio...desculpa pura. Trouxe uns papéis. A mineradora tava querendo comprar essas terras aqui. Vão pagar bem. Era pra eu assinar...Da família,né? A boba aqui caiu. Ele passou a perna, pegou a maior parte do dinheiro amaldiçoado e sumiu no mundo.

— E agora, Dona Natal dos Ferros?

— Não fique preocupada que o seu tá guardado. Vou te pagar, viu?
Eu havia esquecido que estava a trabalho. Se Dona Natal não me pagasse, não teria nenhum problema. Conhecê-la foi um grande presente.

Pelo tom da conversa, parecia que tinha chegado ao fim do relato. Ela pediu licença, foi ao quarto. E de lá voltou com um maço de notas amarradas com uma embira de banana.

— Aqui está o seu ordenado, menina!

Eu não podia recusar. Mas ter encontrado a personagem dos meus sonhos foi mais importante do que aquele pagamento. Antes de entregar o dinheiro, ela segurou minha mão direita e disse:

— Menina, muito obrigado por ter guardado a minha história. E o silêncio de tantas outras que a voz não pode mais alcançar. Volte para a cidade e quando estiver preparada, madura, no ponto...põe essa prosa no papel.  

Passaram-se alguns anos, e Dona Natal dos Ferros nunca me saiu da memória. A mineradora destruiu todas as casas da Serra da Penugem, enterrou centenas de histórias. Consegui guardar apenas a dela. 

Dona Natal dos Ferros mudou para outro arraial e faleceu no silêncio de uma tarde de outono. No sorriso nostálgico da fumaça que sempre delira, ao som da lira de todos os encontros.  

Em sua memória, escrevi essa pequena novela. Depois daquela emocionante prosa, foi que me transformei em uma catadora de histórias.

Fim   
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