Capítulo 4

Abaixou o tom da voz, ajeitou-se num banquinho e naquele jeito bem mansinho, disse:

— Eu vou contar o que aconteceu, trem que me tirou o chão e o céu. Vou contar tudinho, cê vai entender. Não tenha pressa, se quiser que eu faça mais café é só pedir...comer uma quitanda é só avisar, a dispensa tá lotada aqui num falta nada não, menina, mas não sei por quanto tempo isso vai durar. Depois que aquele moço por aqui passou, tudo mudou, a ganância e a inveja, as fofocas, o povo do lugar até afastou da gente. Hoje só tenho aquele rapaz que foi te buscar no ponto, respeitador, prestativo que só vendo. Os outros funcionários saíram de fininho depois do acontecido, ficaram com medo d’eu passar a perna no salário deles. Vê lá se vou fazer uma coisa dessas?! Fui roubada, mas num quer dizer que vou pagar com a mesma porcaria de moeda...bando de povo besta. Me desculpa falar desse jeito...o dinheiro estragou muita coisa, afastou as pessoas da gente, tirou os amigos de perto de mim. Se é que era amigo mesmo...amigo que é amigo tá ali grudado com a gente nas alegrias e nas adversidades. O meu velho dizia que pra ser marido e mulher a gente tem que aprender a ser amigo primeiro. O que ocê acha disso? Não precisa responder, seus olhos ensinam a gente a continuar no rumo da prosa. Ocê é mesmo danada, Zé Ferreira tava com a razão. Cê sabe ficar de silêncio esperando a hora do voto de confiança. Num foi eleição não...


Então, o que era? Senti que Dona Natal dos Ferros tinha dificuldade para ir direto ao assunto, perdia-se nas brenhas do passado, na desconfiança dos vizinhos.

Eu não podia cruzar suas lembranças. Por isso, guardava suas pausas, agarrava seu silêncio...porque ele era todo cheio de gritos e desencontros, “depois do acontecido”. Pareceu-lhe difícil soltar o nome do esposo. E mais delicado ainda tocar nas ações do tal moço.

Parecia cansada, a posição que estava sentada não mais lhe agradava. Aos poucos, mudou a fisionomia. Rosto corado, punhos cerrados. Começou a andar de um lado para o outro. Agrediu a cancela, deu socos na porta da dispensa. Seus olhos pareciam brasa.

— Calma, ocê num precisa preocupar, vai passar, menina. Vai passar.

Servi-lhe uma caneca com água, retirada do filtro de barro. Ela agradeceu e foi logo completando:

— Deixei de ser branca pra sê franca.

Era uma revolta? Tinha a ver com o tal moço? Antes ou após a morte do esposo? Assim como você, leitor, eu também não sabia, mas....

[Não perca o último capítulo da noveleta, amanhã, nesse mesmo horário] 
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