Capítulo 3

— Quero que escute o que a velha aqui tem pra dizer no gozo desse trago aí, mas ocê não vai tomar nota de nada. Diz que fumar dá prazer, embora...deixa isso pra lá. Quando meu companheiro fumava a conversa era mais vagarosa, gostosa, e era viagem...

A partir da descrição, comecei a entender um pouco o caso de Dona Natal dos Ferros. Era saudade do esposo, homem que tingiu pouso no azul infinito. Sua carência, seu ato querente esvaía com a fumaça do cigarro.

Mas como ela poderia mudar tão rápido, depois de eu ter acendido o pito? A sua fala passou a ter reticências, pausa, ritmo. Por isso, o meu delírio.  

Ela parecia outra mulher, dessas que conseguem parar o tempo para a gente ouvir o bater das asas de uma borboleta. Quis ouvi-la:

— Com a herança que o velho deixou, vou poder te pagar direito. Quero, menina, que ocê escute o que tenho pra contar, entendeu? Mas sem muitas perguntas e nada de anotação... quero que conheça algumas lembranças que vão morrer antes de mim, perto de nós.

O que fazer diante de Dona Natal dos Ferros? Como me comportar diante de uma personagem que sempre sonhei ter em meus livros?

Nunca estive diante de uma pessoa que é antagonista e protagonista ao mesmo tempo.Poucas pessoas no mundo cruzam-se em silêncios como ela.

— Estou na sua captura já faz um tempo, entende? Antes de partir, o meu velho pediu que buscasse na cidade uma escritora discreta, sem muito falatório...que curtia a velocidade das lesmas como ele. Anotou suas qualidades num papel que está ali, debaixo do catre de nossa cama.

Não resisti, desrespeitei:

— Quem era o seu marido? Como ele ficou sabendo da minha pessoa?

Ela não respondeu. Fui ignorada por completo.Dona Natal dos Ferros puxou um tamborete de madeira, pediu que eu sentasse ao lado dela.

— Escute aqui...


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