Capítulo 2

— Patroa, aqui está a dona que a senhora pediu pra buscar no ponto.

O rapaz abriu a porteira. Despediu-se e foi embora, sem olhar pra trás.
Dona Natal dos Ferros me olhou dos pés à cabeça e, sem tempo para observações, foi logo dizendo:

— Ô de fora, entre agora que o café tá quentinho. Acabei de passar. Tá fresquinho que só vendo!  

Ela não deixou eu me apresentar. Uma disposição daquelas. A dona não parava de falar.

— Sente aí, fique à vontade. Café preto, forte, tá amargoso. Com pouco açúcar. Doce demais faz mal, né?  Fez boa viagem? Não precisa responder, inhá. Se tivesse passado mal saberia pela cor da sua pele. Cê é forte. É das minhas. Tô que num aguento mais gente frouxa. Uns homens do jornal só de andar nesse sol de rachar do ponto inté aqui quase morrem.

— Mas está mesmo quente!

— Quer fraqueza? Que não venham ao mundo. Bando de fracotes. Falo mesmo. Os danados não aguentam carregar o computador, dá pra acreditar? Dizem que são jornalistas. E não entendem nada do que a gente tá querendo. Maquininha de perguntas.

Natal dos Ferros parecia mesmo revoltada com os jornalistas que por ali passaram. Mas por que fui chamada? Eu não podia falar alto. Nem pensar em interrompê-la. Ela acompanhava até os meus imprecisos atos.

— Aceita mais um gole de café? Se quisê pitá, fique à vontade, tá bem? Mas vá lá pra janela. A fumaça tem que ir pro mato.

Aquela senhora nunca tinha me visto. Como sabia que eu fumava? Será que foi alguém que me indicou e passou a ficha completa? Quase isso.

— Não, Dona Natal. Estou no horário de trabalho. Curto os meus vícios em casa, longe dos...

Ela ficou furiosa com a recusa. Ia e voltava no meio da cozinha. Disparou um quadro de prazer sobre a negativa.  
  
— Ocê num vem com essa bestagem pra cima de mim não, menina? Que bobeira de num misturar lazer com obrigação. Tire seu cigarro e vai pitá sim, sem se preocupar com as regras. Se as pessoas misturassem mais prazer com trabalho o mundo seria outro, num acha?

Não queria ofendê-la. Então, retirei o cigarro da pasta, enquanto ela raiava com um vira-lata no terreiro. Vagarosamente, fui até ao fogão de lenha, mexi nas brasas e acendi o Hollywood no tição. Veio a calma e, em seguida, o delírio. Dona Natal dos Ferros pediu que eu olhasse pra fora e escutasse...


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