A vez e a voz

Para os amigos Paulo Fernandes e Amanda Ribeiro, que muito apoiaram a iniciativa

Chácara Santo Antônio. Chácara Santana. Piraporinha. Capão Redondo. Entre outros pontos da periferia da Zona Sul de São Paulo. Segundo Sérgio Vaz, "a quebrada já foi considerada a área mais perigosa do mundo. Num trágico e histórico fim de semana, de sexta a domingo, foram assassinadas 52 pessoas." É lá que eu estava. “Hoje, em vista do que era, mano, mudou pra caramba.”

A mudança vem de iniciativas de pessoas como o guerreiro Sérgio Vaz. Poeta, contista, cronista, agitador cultural, brasileiro que faz a diferença. “Este ano vai ser ruim, ruim para quem cruzar o nosso caminho.” Para ele, todo dia é dia de ser feliz. Célebre expressão “Feliz todo dia”.

Além do Sarau, toda quarta-feira, às 20h30 no Bar, Sérgio Vaz visita as escolas públicas num projeto intitulado “Poesia contra a violência”, apoia a Várzea Poética, viaja o Brasil, falando do dessas e outras inumeráveis atividades. Em 2009, foi considerado uma das 100 pessoas mais influentes do Brasil.

Homenagem à Cooperifa 

Deixei para esta última postagem um detalhe curioso. No início, fiquei um pouco acanhado. Mando ou não mando uns versos lá no microfone aberto? Um jogador de futebol deu o empurrão: “Vai lá, mano! Aqui é de todo mundo.” De mochila nas costas, fui lá e me inscrevi. Quando disse que era de BH, eles me trataram ainda com mais afeto. “Pô, você veio de longe, hein?!” Aí, só foi aguardar.

Sérgio Vaz estava lá, no cantinho direito do palco, só acompanhando. Demorei para chegar ao microfone. Ele anunciou: “Um mano que veio de BH. Com vocês, Farelo!” O cara tomou um susto, pois os versos eram em homenagem a todos da Cooperifa, em especial, ao Vaz, Zé Batidão, e a todos que fazem da poesia a arte de todo dia. 
Sérgio Vaz e Farelo de Quiat. 
Nunca tinha sido aplaudido por mais de 300 pessoas, declamando um verso livre.Livre de preconceito, de frescura, de limites, de regras, de imposições, de chatices do povinho da academia, da ignorância ou da inconsciência de quem maltrata o canto da palavra. Livre daqueles que olham torto para o gênero poema. Livre das provas, das imposições e notas, das competições absurdas.

No templo da poesia, na periferia, compartilhando a experiência de ser poeta em festa de todas as classes. Assim como o mecânico, a empregada doméstica, o engenheiro, o aposentado, o office-boy, a garçonete, o motorista do coletivo vivo à espera do próximo Sarau. Eu vi os fatos da semana sendo passados a limpo, em verso, inversos, universos, perversos. Brasil. É nessa repetida expressão, MANO, que vem a imagem de unidos pela arte.

Peço desculpas aos leitores por ter mandado postagens longas, nos últimos dias. Mas gostaria que entendessem que foi para compartilhar uma das grandes conquistas do blog, ou melhor, a realização de um sonho. E concluo, com a seguinte imagem do templo em que o silêncio é prece para a poesia:


A Cooperifa é “a vez, é a voz, a vez de quem nunca teve voz, a voz de quem nunca teve vez.” É Vaz. 
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