Entrevista com Diego Vieira

Salve! Salve! A arte das dobraduras. Ele ganhou dos pais um livro de presente. Um tesouro que mudou sua vida em relação à arte. Bem, é isso que imagino, mas melhor ouvir do próprio artista... Hoje, converso com o origamista Diego Lopes Vieira, 18 anos, nascido na cidade de Belo Horizonte.


FL: Diego, conte-nos um pouco sobre como você entrou em contato com a arte do origami.

DIEGO VIEIRA: Ahhh, lembranças... Haha vai ser um pouco complicado contar com clareza como foi que ocorreu, afinal já tem mais de 12 anos! A verdade é que antes mesmo de conhecer a arte do origami eu já gostava de me divertir com papel, porém através de desenhos (dizem meus pais que minhas antigas professoras até gostavam de exibir meus desenhos para os outros pais haha). Naquela época (durante meus 4 e 5 anos), eu já vi que era possível criar figuras dobrando o papel, afinal eu já sabia fazer um barquinho ou um aviãozinho de papel (que nunca voava direito...), mas por um tempo eu preferi continuar desenhando. Bom, o tempo passou, e era comum organizarem no pátio coberto do Colégio Santa Maria uma feira de livros de todos os tipos (já não me lembro mais com que frequência, creio que era uma ou duas feiras por ano). Eu adorava visitá-las, sempre havia um livro diferente ou interativo que me chamava a atenção. E foi em uma delas, entre meus 6 e 7 anos, que eu vi dois livros, de capa preta, escritos “Brincando com Dobradura – Volume 1 e Volume 2”. Na capa de um deles, um magnífico pavão bem detalhado e todo feito de papel era mostrado. E aquilo me conquistou de tal maneira que eu queria pelo menos aquele livro de qualquer jeito. Meus pais, que nunca haviam me visto tão excitado para comprar um livro, compraram os dois volumes pra mim. E assim foi o meu primeiro contato com a arte do Origami...


O livro que abriu as portas da carreira
FL: Qual foi sua reação ao concluir o primeiro origami? Você ficou surpreso?


DIEGO VIEIRA: Haha foi uma das minhas melhores experiências. E foi até uma história engraçada porque, inicialmente, não era eu que ia fazer os origamis dos livros, mas sim meu pai. Ele tem um lado artístico que pouquíssimos conhecem: quando pequeno, era aficionado pelas histórias em quadrinhos dos heróis da Marvel e da DC Comics (Thor é o favorito dele haha) e gostava de desenhar e recortar seus próprios heróis que, por sua vez, eram muito interessantes e muito bem detalhados. Meu pai, mais tarde, chegou até a pintar belíssimos quadros que hoje estão nas paredes da casa de minha avó. Sabendo de tudo isso, esperava eu que ele tivesse alguma habilidade também em dobrar papel (e sim, ele tem), mas por falta de tempo (trabalho e etc.), ele raramente fazia um origami que eu queria. Quando minha paciência acabou, peguei os livros e decidi fazer por conta própria, porém já esperando a catástrofe que ia sair. E pra coroar, eu ainda havia decidido começar com o pavão. Mas para minha grande surpresa e satisfação, e sem qualquer ajuda de meus pais, eu consegui dobrá-lo. Fiquei pasmo... minha primeira reação foi mostrar pra minha mãe,  que duvidou que aquele lindo pavão havia sido feito por mim. Mais tarde meu pai chegou, e confirmou o ocorrido. Depois de tamanho sucesso, fui explorando as outras páginas dos dois livros, e em pouco tempo, dominei todos os origamis daqueles dois volumes.

FL: O que mais lhe agrada na confecção dos origamis? De qual arte o origami mais se aproxima, em sua opinião?

DIEGO VIEIRA: O legal do origami é que, mesmo com 12 anos de experiência, eu continuo aprendendo coisas novas. Cada origami é um desafio, e a satisfação gerada pela conquista e superação dele é sem igual. Além disso, é uma arte que jamais se perderá no tempo porque ela pode ser ensinada, seja através de livros, seja oralmente, de geração pra geração. É também um excelente passatempo que também funciona como terapia: acalma, relaxa e alivia tensões. Mas o que mais me agrada é a possibilidade de dá-lo para outra pessoa na forma de presente, a qualquer hora, e a reação da maioria que recebe um origami (meninas, principalmente, haha) não tem preço. Por isso, para não perder a felicidade que o origami pode transportar, jamais os venderei. Na minha opinião, o origami é uma arte única, mas que mais se aproxima da arte das esculturas, afinal, em ambas uma figura é criada através da manipulação de um material qualquer.

FL: Você tem ideia de quantos origamis já produziu, desde o primeiro contato? Já organizou alguma exposição?

DIEGO VIEIRA: Nossa, eu realmente não faço a ideia haha. Mas se fosse para eu dar um palpite, eu diria que já devo ter feito pelo menos uns quinhentos, uma vez que quando comecei, eu tinha dois livros. Hoje, eu já tenho pelo menos uns seis, e juntando com os inúmeros modelos que fui aprendendo pela internet, posso dizer que eu sei fazer pouco mais de uma centena de origamis diferentes. Exposição verdadeiramente dita eu nunca realizei, mas já realizei diversos trabalhos, envolvendo o origami. Na minha quarta série, por exemplo, coordenei as turmas para a confecção de um presépio todo feito de origami. Em um ano, para comemorar a paz, ensinei várias turmas a fazerem o tsuru, origami que simboliza a paz. Cerca de mil tsurus foram confeccionados, e eles enfeitaram completamente o teto do pátio coberto. Ainda nesse ano, eu ensinei alguns modelos para as turmas do 6.º Ano em uma mini-oficina. Muitos amigos têm me recomendado a expor meus modelos, então decidi me aproveitar da febre das redes sociais para expô-los online. Ainda estou cogitando a criação de uma página de origamis no Facebook.

FL: Há algum origami no conjunto da sua obra que mais marcou? Por quê?

DIEGO VIEIRA: Durante esses longos 12 anos, considero o pavão muito especial para mim, principalmente por ter sido o origami que me conquistou e me convidou a conhecer melhor essa arte. Mas recentemente eu tenho dado muito valor também para a rosa de kawasaki, origami bastante complexo e difícil, mas que cujo resultado é satisfatório (me pergunto quantas vezes eu já disse isso haha), principalmente com a reação das meninas hahaha.


Diego Vieira com seu pavão misterioso
FL: Para as crianças interessadas nessa arte milenar, você pode indicar algum site e/ou livro?  

DIEGO VIEIRA: Não imagino que haja uma única livraria que não tenha para vender um pequeno livro de dobraduras, basta pesquisar, e tomar cuidado com o nível de dificuldade dele. Este site: http://superorigami.com/passoapasso.html tem alguns modelos que são ótimos para começar e incentivar, mas antes, dê uma conferida nestes dois sites: http://oficinadoorigami.blogspot.com.br/2011/03/simbolos-do-diagrama.html e http://www.comofazerorigami.com.br/simbologia/, que ensinam um pouco sobre a simbologia universal do origami. Lembrem-se de que a paciência e um pouco de perfeccionismo são fundamentais para a confecção de um bom origami.

FL: Se você tivesse que fazer um origami, relendo uma obra da literatura brasileira, qual autor que você escolheria?

DIEGO VIEIRA: Wow, relacionar a arte do origami com a literatura (que nada mais é do que a arte das palavras) é uma tarefa um tanto quanto complicada. A meu ver, o fato de o origami se tratar de uma arte bastante matemática e geométrica me faz lembrar dos poetas cubistas, como Oswald de Andrade, que criam diversas imagens e cenários que, juntos, criam uma única realidade. O origami, de certa forma, une diferentes dobras e geometrias para formar uma figura única. Porém, explorando outra linha de raciocínio, eu também gosto de relacionar a arte dos origamis com Clarice Lispector, porque são poucos os que enxergam, mas cada origami expressa um sentimento, um desejo, como exemplifiquei lá encima com o tsuru, origami da paz, felicidade e boa sorte. Pode não parecer, mas essa arte também trabalha com as profundezas do nosso interior. Clarice trabalha de forma semelhante com as palavras, registrando aquilo que sentia e explorando o interior das mentes de suas personagens. Por isso, estabeleço essa relação...

Para maiores informações, procure o artista no
www.facebook.com/diegovieira


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