Tempo de vô

A Mila Grazielle, com respeito e carinho.

O tempo é de voo. Assim diria o Barthô. Nessa manhã o artista Paulo Fernandes (que será o entrevistado de amanhã aqui) nos presenteou com um trecho do livro Tempo de voo, do mestre Bartolomeu Campos de Queirós, para a nossa intimidade, Barthô. A obra é para ser relida sempre. Nela o vô e o voo espalham experiência, recolhendo a essência do tempo. A imagem veio num dia especial. Após 11 anos da minha estreia na literatura com o livro Baralho 734, tive o impulso de ler também nessa manhã o poema que fiz ao vô da minha filha. Ela não o conheceu. Eu pouco...só tinha 06 anos, talvez o suficiente para lhe escrever alguns versos, que transcrevo abaixo:

Era o teu pai
um grande carpinteiro
feitor de porteira, tranqueira,
de porta, banco, janela
cangaia, tamborete, cancela
Era bombeiro, festeiro
devoto de São Judas Tadeu
São Sebastião de todo janeiro
e quem conheceu
jamais o esqueceu
Agricultor, plantador de mandiocas
Carregador de balaios nas costas
Aos sábados, comerciante
No mercado, um feirante
Laranja, farinha torrada
Na madrugada, fubá
No final do dia, cansado de tanto andar
Pegava a condução
e após comprar o arroz e o feijão
voltava pro sertão
Um dia chuvoso ou não?
Num discurso em eleição,
No pátio da escola
Depois da aula
Cai por chão
As pessoas de bom coração se vão
Morreu Raimundinho
O arraiá sentiu sozinho
E aqui termina a história
de boas qualidades de um homem solitário
derramando lágrimas sobre
a poeira que ficou pelos cantos
de uma vida inteira

 Escrevi esses versos quando tinha apenas 14 anos. Pai, para sempre herói.


Até daqui...
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