Inesquecível Bartolomeu Campos de Queirós

Para Paulo Fernandes e todos outros fãs do Barthô

Era só de ouvir falar, de um concurso ou curso sobre o seu trabalho. Ainda na faculdade, disseram-me de um tal Indez, título com que os alunos se identificavam e os professores se emocionavam. A professora Zoí Rossini, lá  de Nova Lima, leu tudo dele. Tornou-se amiga do escritor, fato que narra com grande orgulho. 



No dia 17 de fevereiro de 2011, exatamente às 15h54, (está registrado no meu exemplar) cai em minhas mãos e minha vida o famoso livro Por parte de pai. A epígrafe é consolo aos ignorados, não dos que estão no topo da vaidade, mas daqueles que se encontram na linha dos entraves. Fisgou com jeito: Nunca tirei dez com louvou, sempre sete com distinção. Tarde maravilhosa aquela. Imagino que todos que começam a ler Bartolomeu sentiram aquilo que senti naquele primeiro contato. Um menino no olhar poético do narrador sobre a história do avô Joaquim, homem de letra bonita. "Letra alta, tombada para a direita, quase deitando, mas sem preguiça." De repente, não mais que de repente, narrador afirma: A casa do meu avô foi o meu primeiro livro. Uma parede onde todos os acontecimentos eram registrados. Essa é, sem dúvida, uma imagem de para muitas outras imagens na cabeça dos leitores. Não consegui largar o livro.

Entre uma leitura e outra, veio a ideia de iniciar um projeto para rede de Colégios onde trabalho de aproximar os alunos dos autores. A intenção era e é de fazer com que o aluno entenda um pouco mais sobre a arte literária, que ele possa conhecer melhor o processo de criação artística e não ficar imaginando que o escritor é uma figura distante, que vive isolado do resto do mundo. O primeiro convidado?

Não foi fácil consegui o encontro. Nessa época, ele estava bastante doente, em alguns tratamentos delicados. tanto eu como a professora Vânia Morais realizamos muitas ligações para amigos do escritor, editores, revisores; até que conseguimos: final do mês de maio, numa manhã de terça feira. Local: Colégio Santa Maria-Floresta, apenas para os alunos do 9.º Ano, série em que o título foi adotado. 

"O escritor chegou e quer conversar com você. Está lá na sala do diretor". A minha alegria foi enorme. Fiquei meio perplexo. Eu nunca tinha entrevistado um autor. Como reagiria? O que fazer? Gente, lá conversando pouco com o diretor ele levantou e apertou minha mão. Uma figura miúda, tímida, com gestos calculados. De poucas, mas sábias palavras. A convite do antigo diretor Padre Sérgio Palombo, ele ministrou aulas de língua portuguesa no Santa Maria, na era de chumbo. Isso aconteceu depois que ele retornou de Paris. Embora emocionante o encontro, foi difícil de conversar com o Barthô, num primeiro momento.

Durante a conversa, os alunos desceram para o auditório da escola. No caminho, que caminho! Entre as flores do jardim até ao teatro. Disse ao Bartolomeu que ele não precisava se preocupar com tempo de fala. E que depois os alunos fariam algumas perguntas. Sabiamente ele disse: "Falo pouco, escrevo muito. Eu sei é escrever, professor. Vou falar o quanto de tempo que eles estiverem dispostos a ouvir." 

20 minutos em média. Os alunos não piscavam os olhos. A voz, o ritmo...era o narrador de suas obras. Parecia que era sim o conjunto de todos os seus personagens lá na frente, no palco, bem perto dos alunos (ele saiu de trás da mesa montada, puxou a cadeira com jeitinho, ficou bem pertinho dos estudantes, como quem diz: eu tenho algumas coisinhas para contar para vocês, num estilo segredo para vida toda).

Não teve "o melhor  ficou para final", ou antes do depois, ou a parte do pai, foi num tempo de voo aquele enigmático e inesquecível encontro. Gente, os meninos piraram mesmo foi quando sacaram que a obra do Bartolomeu é essencialmente biográfica. Aquela parede, mencionada acima, de fato existiu. Seu avô Joaquim, de fato ganhou um prêmio na loteria e dizia :"Tem dó de nós". Dó eu fiquei foi do escritor que recebeu dezenas de perguntas. Tivemos que tirá-lo de lá contra a vontade dos meninos (minha também). 

De lá pra cá, Bartolomeu Campos Queirós é o meu Monteiro Lobato, o Marcel Proust do universo infantojuvenil. Vou ler toda sua obra, inclusive aproveito para citar suas duas últimas Vermelho amargo (2011) e Elefante (2012), cujo manuscrito foi entregue à editora quatro dias antes da sua partida.

Bem, exagerei na postagem, mas esta é comemorativa, especial, a 30ª. Por isso mesmo, digo ao mundo que leia Bartolomeu Campos Queirós. Por quê? Ele tomou ciência para lidar com o caos, transformando a desordem em beleza e movimento. Dele, "o universo é um grande livro aberto e sem texto." 

Até daqui...
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