A trinca no tempo

Eu sei. Você sabe. Os antigos diziam. A criança é a cor do sol e a beleza da lua. A enigmática energia dos horizontes.
Era folha, papel, agenda gritando o excesso de compromissos e pautas sobre pautas de reuniões da semana, mês e trimestre. Loucura da pós-modernidade. Ela veio correndo do quintal, entusiasmada.
            — Pai, eu achei. Aqui... o seu relógio!
            Ela não terminou a frase por susto ou medo. Não esperava que o relógio fosse cair, mas imaginava a minha reação. Contive-me. O relógio está realmente trincado, na parte direita. 


             A minha filha, diante do acidente, ficou sem graça, porém me trouxe a luz para esta crônica. Ela me fez um baita favor. Como assim?
            — Minha Pituquinha, obrigado por permitir ao chão conhecer a força das horas por alguns segundos. Você conseguiu realizar uma pausa necessária e inesquecível. É. Uma trinca no tempo. A cicatriz no relógio é um tempo para se desfazer do tempo das obrigações. Agora, no meu colo, colados nesta cadeira, descortinamos um momento para esquecer quase tudo de desimportante (são tantas coisas) e lembrar que a sua presença é sempre o melhor presente, filha.
            Chega de marca, dados e datas, ponto e números até os 12/24 e seus ponteiros. É o encanto desse doce agora. Agradeço-lhe pela trinca na transparência do vento leve que sopra e vamos. Até daqui...

Agradecimento especial ao fotógrafo Reginaldo Mesquita
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