Miguel: o galo-cachorro da minha mãe

           Desde pequeno, ele já demonstrava que ia dar trabalho. Ainda frango já bicava a bunda da pequena Camila. Não deu outra, depois de aprontar todas, o Galo Miguel foi deportado para a casa de Dona Eva, que estava sem galo no momento. O bichano chegou como o dono do terreiro, respeitando apenas a proprietária da casa e sua filha mais velha.
Num certo dia, enfezou e deu esporada no Ailton. O coitado ficou sentindo a perna por um bom tempo. “Nem uma porretada teria maltratado tanto”, afirmou a vítima. Nesse mesmo embalo, colocou a tia Maria para correr.
Juraci e Maria Branca, duas vizinhas, tiveram o ombro atacado pelo Miguel. Ah, ele aprontou também com a tia Celeste. A  bicada foi bem perto do joelho. Aquilo o sangue escorreu até no pé.
— Ah, Salica. Cê fica nessa andação pra casa de Eva, cuidado. Lá tá tem um galo que pegou Celeste.
— Ah, que nada, Rosa. Num é esse galo que vai me tirar de lá não.
Mas o danado caprichou mesmo foi com a Du Carmo: em cima da veia, fez um rombo que o sangue esguichou longe.
Miguel é mesmo o dono terreiro pedrês. Todos os filhos são dele. Poderoso como ele só. Também coleciona diversas reclamações de vizinhos e familiares. A dica é: chegou à casa de Dona Eva, tome cuidado com o Galo que pode aparecer a qualquer momento. Cuidado com o único Galo-Cachorro da região. 
Eu nunca vi nada igual em lugar nenhum. 
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